Hoje recebi uma declaração de amor. Me parecia estranha e um pouco confusa por conta da caligrafia do indivíduo. Estava escrita em um papel sem enfeites, também porque apenas o conteúdo interessava. É a primeira vez que me escrevem e por isso fiquei radiante. Diferente das declarações comuns, a carta estava com pouco melancolismo, muita sinceridade e cheia de exemplos, para completar, um tanto engraçada. Confesso que fui surpreendida. Um vez me perguntaram se alguém já havia se declarado pra mim, eu respondi que o amor pode ser confuso, declarativo e em meados do século XX. Evidentemente o autor da pergunta não entendeu e muito menos eu, mas era a explicação que eu sempre dava sobre o amor.
Não tive vontade de contar sobre a carta para ninguém, ela ficou guardadinha na gaveta da cômoda. Me passava pela mente que algo tão singelo deveria ser um segredo. Eu a li três vezes. Na primeira achei que não era para mim. Na segunda tive vontade de amassar. E finalmente na terceira entendi o espírito da coisa. A carta dizia o seguinte:
''Queria saber por quanto tempo eu iria continuar sem sentir aquele nervosismo de estreia, as mariposas no estômago e uma sensação de vergonha. Mas então que droga eu estaria pensando? Bem, não me entenda mal, ao contrário do que eu imaginava, não foi culpa minha eu me... Como se diz mesmo? Ah! Me apaixonar por você, Clarice. Tive que pesquisar em muitos livros para entender o significado da palavra amor. (Significado: Afeição profunda; objeto dessa afeição, conjunto de fenômenos cerebrais e afetivos que constituem um instinto forte; Afeto a pessoas; paixão; entusiasmo.) É, eu acho que sinto tudo isso por você. Desculpa o mal jeito Clarice, é que eu te amo.
Ps.: amo muito...''
O espírito da coisa é que não era uma coisa e sim uma coisinha fofa. Eu ainda não sei quem é, mas no verso da carta tinha: "De: alguém confuso, e que se declarou para você como em uma história do século XX que eu li em um livro."
