
[...] Inesperadamente, Falcão olhou para o infinito e começou a interrogar o Criador. Ele falava com Deus como se fosse seu amigo.
- Ei! Quem é você que está por trás da cortina das nuvens? Por que você se esconde atrás do véu da existência? Por que silencia a sua voz e grita através do fenômenos da natureza? Por que gosta de se ocultar aos olhos humanos? Sou uma ínfima parte do universo, mas clamo por uma resposta. Deixe-me descobri-lo.
Marco Polo ficou espantado com esse diálogo singular. Entretanto, mostrando um ar de intelectual, virou-se orgulhosamente para o amigo e disse:
- Falcão, Deus não existe. Ele é uma invenção espetacular do cérebro humano para suportar as limitações da vida. Desculpe-me, mas, para mim, a ciência é o deus do ser humano.
Numa reação surpreendente, Falcão se levantou. Subiu no banco da praça e começou a chamar aos gritos todos os que ali passavam. Com gestos histriônicos, bradava:
-Venham! Aproximem-se! Vou mostrar-lhes Deus!
Num instante reuniu um grupo.
Marco Polo ficou apavorado. Nunca vira Falcão reagir assim. Tentava acalmá-lo, sem êxito. Ele continuava gritando:
-Deus está aqui! Acreditem! Vocês ficarão perplexos ao vê-lo.
Marco Polo achava que Falcão entrara num repentino surto psicótico, estava tendo uma alucinação. Procurava ansiosamente pegar nem seu braço para que ele se sentasse. De repente, Falcão silenciou. Apontou as duas mãos para Marco Polo e disse em altos brados:
-Eis Deus aqui, em carne e osso!
Marco Polo ficou assustado. Um burburinho reinou entre os ouvintes.
- Acreditem! Este jovem é Deus! Por que lhes afirmo isso? Porque ele acabou de me dizer que Deus não existe, que é um mero fruto do nosso cérebro! Vejam só! Se este jovem não conheceu os inumeráveis fenômenos dos tempos passados, se ele não desvendou como ele mesmo consegue entrar em seu cérebro e construir seus complexos penamentos, e, apesar de todas essas limitações, ele afirma que Deus não existe, a conclusão a que cheguei, meus amigos, é que este jovem tem de ser Deus. Pois só Deus pode ter tal convicção!
A multidão ficou boquiaberta. O discurso do indigente era tão inteligente que esfaleceu não apenas a soberba de Marco Polo, mas o orgulho das pessoas que o ouviram. O jovem ficou vermelho de pasmo.
Falcão desceu do banco sentou-se. Desembrulhou um sanduíche e começou a degustá-lo. Com a boca cheia, falou para Marco Polo:
- Sabe que sabor tem esse sanduíche?
Marco Polo , envergonhado, meneou a cabeça dizendo que não.
Falcão prosseguiu:
- Se você não tem segurança para falar de algo tão próximo e visível, não fale convictamente de algo tão longe e intangível. Não é sensato.
O jovem travou sua inteligência. Pela primeira vez não achou qualquer frase apar rebater. Apenas disse:
- Não precisava exagerar.
Falcão retrucou:
- Se você disse que é ateu, que não crê em Deus, sua atitude é respeitável, pois reflete sua opinião e convicção pessoal. Mas dizer que Deus não existe é uma ofensa à inteligência, pois reflete uma afirmação irracional. [...]
Este é o trecho do livro que estou lendo ''O futuro da humanidade'' do autor Augusto Cury. A emocionante história de um médico e um mendigo em busca de uma mendo melhor. É muito bom, eu recomendo! (: